Banda sonora do dia: B Fachada

A época dos saldos chegou mais cedo

Na Assírio & Alvim, e em plena baixa. Eu vou passar por lá. Mais informações aqui.

O Seminarista, primeiro capítulo

Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos. O Despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço. Antes de entrar no que interessa – Kirsten, Ziff , D.S., Sangue de Boi – eu vou contar como foram alguns dos meus serviços.
O último foi na véspera do Natal. O Despachante deu-me um endereço e disse onde encontrar o freguês, que estava dando uma festa para um monte de gente. Bastava chegar com um embrulho de papel colorido que eu entrava na casa. O Despachante era um cara magro e alto, muito branco, louro, e estava sempre de terno preto, camisa branca, gravata preta e óculos escuros. Ele me pagava bem.
«O freguês está vestido de Papai Noel e tem uma berruga no rosto ao lado direito do nariz.»
Sempre odiei, desde criança, esses papais-noéis fazendo Ô! Ô! Ô! Sei que o ódio é um surto de insanidade, como disse Horácio, Ira furor brevis est, mas ninguém está livre dele. Vesti uma roupa alinhada, peguei uma caixa vazia e fiz um enorme embrulho de presente. Coloquei sob a camisa a minha Beretta com silenciador e toquei a campainha da casa do freguês.
Para sorte minha quem abriu a porta foi o Papai Noel.
«Entra, entra», ele disse, «feliz Natal!»
«Faz Ô! Ô! Ô! pra mim», pedi, enquanto constatava a berruga ao lado do nariz.
«Ô! Ô! Ô!», ele fez. Dei um tiro na sua cabeça. Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.
Ah, me lembrei de outro trabalho que fiz, não digo sentindo prazer, mas com uma boa disposição. No princípio senti certo escrúpulo, o sujeito era cheio de filhos, meninos e meninas.
Nesse caso vigiei o freguês antes de fazer o serviço. Ele chegava de carro e a porta automática da garagem demorava para abrir. Dentro do meu carro, do outro lado da rua, tinha oportunidade de observá-lo. Era um cara nem magro nem gordo, bem-vestido. Devia gostar dos filhos, estava sempre acompanhado de um deles. Foda-se, pensei, vou fazer o meu serviço. Mas dentro de mim sentia certo mal-estar, creio que estava começando a ficar frouxo, e para um matador profissional a pior coisa do mundo é ter uma consciência, não existem coisas erradas e coisas certas, é tudo a mesma merda.
Eu nunca olhava as crianças com atenção, o que era um erro, nós temos que ver tudo, o assassino profissional não olha, VÊ, essa é a sua principal virtude: ver, videre acrius, como dizia Cícero, ver bem. Eu, estupidamente, não via que as crianças, meninos e meninas que variavam entre nove e onze anos, nunca eram as mesmas. Algumas estavam malvestidas, outras eram mulatas e certa ocasião o menino era um chinesinho ou coisa parecida. O puto do freguês era um pedófilo. Nenhum era filho dele. Há quem diga que isso é normal, que cerca de dez por cento dos homens são pedófilos, e há quem diga que pedofilia é uma doença. Não me interessa, seja lá o que for não gosto de pedófilos.
Entrar na garagem do freguês não foi difícil. Embiquei o meu carro atrás do dele assim que a porta da garagem abriu e entrei grudado no seu carro. Quando paramos os carros ele disse que o que eu fizera era proibido, devia entrar um carro de cada vez. Respondi que ele tinha razão, que eu era novo no prédio. Ele estava acompanhado de um menino que não tinha mais de nove anos.
Saltei no mesmo andar que ele, o corredor estava vazio e eu enfiei com força o cano da pistola nas costelas do puto.
«Abre a porta do seu apartamento», eu disse.
Entramos.
«Você quer dinheiro, não quer?»
«Quero», respondi.
Fomos até um cofre, que ele abriu. Havia um montão de dinheiro lá.
«Põe num saco», eu disse.
Ele botou a grana dentro da saca de uma loja grã-fina. Eu disse para o garotinho, «me espera lá na sala».
Ficamos eu e o freguês em frente ao cofre aberto. Sem pressa, atarraxei o silenciador no cano da pistola.
«Eu lhe dei toda a grana que tinha», ele disse.
«Foda-se», respondi, dando um tiro na cabeça dele.
O garotinho me esperava na sala. «Vamos embora», eu disse.
Na garagem, peguei no carro do freguês o controle remoto da porta da garagem, entrei no meu carro com o menino e saímos. Perguntei ao moleque onde era a casa dele.
Era um barraco na favela.
Assim que entramos, uma mulher gorda que devia ter trinta anos, mas parecia ter cinquenta, agarrou o garoto pelas orelhas.
«Onde você se meteu, hein?»
«O moço me levou para comer doces na casa dele», o menino respondeu.
«Não posso sair que esse moleque fica vadiando», suspirou a gorda.
«Onde foi que a senhora se meteu e largou o menino sozinho?», perguntei cutucando o peito da mulher com o cano da pistola.
«Eu tenho que trabalhar para comprar comida para esse moleque e os dois irmãos pequenos dele, o meu marido se mandou», ela respondeu com os olhos arregalados, a voz trêmula.
«Então agora vai parar de trabalhar», eu disse colocando a saca cheia de dinheiro na mão dela.
«Abre uma poupança e fica em casa cuidando dos seus filhos, ouviu?»
Apertei o cano da pistola no rosto dela, para deixar uma marca. Ela gemeu.
«Vou voltar aqui. Se você não tomar conta direito dos seus filhos eu te arrebento, entendeu? E se for viver com um gigolô que vai roubar a sua grana eu mato vocês dois.»
Claro que nunca mais voltei lá. Aquela favela estava repleta de mulheres infelizes, cheias de filhos, abandonadas pelos maridos. Foda-se.

O regresso de Rubem Fonseca



O Rubem Fonseca tem novo romance, descobri agora no twitter do José Afonso Furtado. Chama-se O Seminarista, e foi publicado no Brasil pela Agir, do grupo Ediouro, para onde o escritor se mudou, após anos na Companhia das Letras. Mais informações aqui e excerto do primeiro capítulo aqui.

À conversa com Cindy Sherman...

Foto de Dora Nogueira

Esta foi a vez do Tiago Pereira, para o jornal i. Aguardo a minha...

Muro de Berlim, 20 anos depois.

«Uma viagem a Berlim – a de ontem e a de hoje. A reportagem na Alemanha em 2009, as memórias dos repórteres de 1989/90, o papel da Igreja, os movimentos culturais e toda a história do momento em que parte da história se desmoronou», num excelente trabalho da Rádio Renascença.

Cindy Sherman: Untitled Film Stills

Neta de peixe..

Inaugura-se hoje, às 18 e 30, na Assírio & Alvim, a exposição A Praia Formosa, com fotografias da ilha da Madeira tiradas pelo avô de Lourdes de Castro, Jacinto A. Moniz de Bettencourt. Na ocasião, será lançado o catálogo da mostra. A artista madeirense estará presente.

Prémio Leya

João Paulo Borges Coelho, com o romance O Olho de Hertzog, é o vencedor da 2.a edição do Prémio Leya.

20/9

Reboot...

Optimismo na imprensa?

«O futuro dos jornais impressos não é tão negro como se pinta», já que «as vendas mundiais de jornais continuam a crescer», diz o director de comunicação da Associação Mundial de Jornais. Notícia completa na edição de hoje do DN.

A Mona Lisa deles

A Mona Lisa da paleontologia acaba de ser revelada. Ver aqui.

Singularidades de um realizador português



Não se nota, mas é ele, no Indie Lisboa, a apresentar o seu último filme, Singularidades de uma rapariga loira. Plateia cheia. Palavras simples. Admiração e respeito. Começou por nos dizer que o Cinema não é novo. E que ele também não. No fundo, que seu caso também é simples. Tão só porque se chama Manoel de Oliveira.

Loucos informados

Porque andam os loucos hoje tão bem informados?

Algumas (possíveis) respostas de Paulo Moura, aqui.

Trabalhar cansa, mesmo sem relatórios




Retirado daqui.

Liberdades e manhas

«Acabar com o regime salazarista, o 25 de Abril conseguiu. Acabar com o fazer manhoso que diz que não faz, isso é que é difícil. Esse ranço é pré-salazarista, já está entranhado.»

Ferreira Fernandes, na edição de hoje do DN.

Matosinhos

De regresso de Matosinhos, depois de dois dias a ouvir falar de Literatura em Viagens. Para quem lá ficou, ainda há outros dois dias de conversa.

Desespero

Desespero é o sofá; é indiferença e olhos vidrados e sem curiosidade.

Paul Theroux, in O Velho Expresso da Patagónia

Pintar e filmar cidades

Ela disse-lhe: «Eu pinto cidades». E ele, que andava com uma dentro da cabeça, fez um filme. Birth of a City, de João Rosas, é uma das quatro longas-metragens da competição nacional do Indie Lisboa. Para ver dias 27 de Abril, às 21 e 45, e 1 de Maio, às 15, no Cinema Londres.

Pirataria virtual

Não há direito.

One in a million (ou menos!)

Silêncios familiares

Fotografias da exposição Verosímil, de Raquel Mendes. Fragmentos do quotidiano. Retratos mudos de ambientes familiares. Histórias que só as imagens sabem contar. De 18 de Abril a 30 de Maio, na Galeria Sopro, em Lisboa.

Leituras XI

Arte Portugal

Uma galeria portuguesa só na internet? Isso mesmo, aqui. O objectivo é «divulgar e disponibilizar, em contexto nacional e internacional, a arte contemporânea portuguesa emergente». A primeira exposição é Jogo Casual, de José Nuno Lamas e Valter Ventura. Está a um clique de distância.

O fotógrafo do Bairro Alto

Não me lembro do número de vezes que veio ter comigo, a meio do jantar, com aquela frase batida: «Vai uma fotozinha?»... Vi-o muitas vezes, ao fim de semana, aos dias úteis, ao início da noite, já de madrugada, a qualquer hora. Sempre bem disposto. E sempre no Bairro Alto. Mas nunca o tinha visto assim, como nesta reportagem da Joana Beleza e da Maria João Costa, para a Rádio Renascença.

Escritor

No amadurecimento de um escritor não há nada semelhante às cópias das pinturas da Capela Sistina dos começos de Jackson Pollock, com as suas interessantes alusões a Thomas Hart Benton. O escritor, podemos vê-lo a aprender desajeitadamente a andar, a ajeitar a gravata, a fazer amor, a usar o garfo e a faca. Dá a impressão de alguém que está muito só e determinado a dedicar-se à sua formação. Ingénuo, provinciano no meu caso, por vezes bêbado, por vezes obtuso, quase sempre desajeitado, mesmo uma selecção cuidada da sua obra inicial será a nua história da sua luta para conseguir uma formação em economia e amor.

John Cheever, no prefácio à edição do primeiro volume dos seus Contos Completos (Sextante).

Leituras X

Leituras IX

L'oiseau et l'enfant, de Marie Myriam

A arte digital de Jaime Vasconcelos

Jaime Vasconcelos fotografou umas quantas passadeiras para peões, trabalhou-as no computador e depois imprimiu-as. O resultado é um extraordinário conjunto de pinturas (ínvios são os caminhos da arte) que faz lembrar a poética de Mark Rothko. Para ver, na Galeria das Salgadeiras, até 17 de Maio.

Escrita Criativa

«Temos todos os dias a certeza de que a escrita criativa pode contribuir mais para a nossa felicidade do que um parlamento, uma multa da ASAE, um almoço grátis ou um elefante apaixonado: é a possibilidade de cada um se divertir consigo, de compreender a sua história (reconstruí-la, desconstruí-la e reinventá-la); de tornar o mundo um lugar mais habitável», diz Pedro Sena-Lino na apresentação do novo blogue da Porto Editora dedicado à Escrita Criativa (dica da revista Ler).

Romances

Às vezes, infiltram-se nos romances fragmentos de realidade que deixam manchas de humidade, como uma infiltração na parede de um quarto (Juan José Millás, O Mundo).

Leituras VIII

Quem quer ser pobre?


Sem ser inédito, é sempre surpreendente. Aravind Adiga, um jornalista e escritor indiano, nascido em Madras (actual Chennai), em 1974, ganhou o Man Booker Prize 2008, o mais importante prémio literário de língua inglesa, com o seu romance de estreia. E não é para menos. O Tigre Branco, que chega a Portugal pela mão da Presença, é uma extraordinária parábola sobre as contradições e desafios que as grandes potências do Oriente, em particular a Índia e a China, enfrentam.
Contra todas as probabilidades, Balram Halwai consegue romper com a sua condição (e casta) de pobre e chegar ao mundo empresarial de Bangalore. E quando ouve a notícia da visita oficial ao seu país do primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, decide contar-lhe a sua vida. É uma conversa que se prolonga durante sete dias e na qual vamos conhecendo todas as suas peripécias, desde o quotidiano na «Escuridão» até ao golpe com que conquistoua liberdade e um lugar na «Luz».
Desta forma, Aravind Adiga, que viveu na Austrália e nos Estados Unidos da América e colaborou com a Time e o Financial Times, tentou perceber como seria a sua própria vida caso tivesse nascido pobre. E a verdade é que, como diz nesta entrevista, «não há saída para a favela». A menos que, como Balram Halwai, se opte pelo crime.

Qual foi o ponto de partida deste romance?
O Tigre Branco é uma ficção e não um trabalho de jornalismo, como muitas vezes é apresentado na Europa. Só tem intenções literárias. Claro que para uma pessoa de Portugal pode ter um sentido muito diferente e ser visto como um olhar sobre a Índia. No entanto, conta a história de um homem que tenta conquistar a sua liberdade. E essa busca é o tema central do romance. Trata-se de uma narrativa sobre alguém como eu, mas de uma classe social diferente. Alguém pobre, mas que tem as mesmas preocupações que eu. Que tenta ser livre na vida, sem a pressão da religião, da sociedade, da família ou da economia. Claro que para mim é mais fácil conseguir essa liberdade. E o desafio foi perceber o que teria acontecido caso eu tivesse nascido pobre,como a maioria de pessoas no meu país. Temos uma sociedade extremamente hierarquizada, com ricos, classe média e pobres, sem grande mobilidade social. E há tendência para se achar que os pobres são pessoas diferentes. Que têm aspirações diferentes. Que têm emoções diferentes.

Nesse sentido, a personalidade «tigre branco» é uma metáfora?
Todos estamos presos a algo. Ao mesmo tempo, qualquer pessoa é um potencial tigre branco, alguém único e diferente. Mas muitas forças sociais podem limitar a nossa individualidade. E há quem aceite isso. A sociedade dá-nos estabilidade, casamento, emprego e, para o retribuir, sacrifi camos a nossa individualidade. Provavelmente, nem todos estão preparados para esse sacrifício. O tigre branco insiste na liberdade total para a sua vida, independentemente das consequências. Mesmo se isso implicar um crime.

Para contar a sua história, o tigre branco dirige-se ao primeiro-ministro chinês. Como surgiu essa ideia?
Ele não está a escrever cartas, nem e-mails. Está em casa e começa a falar em voz alta. Ouve na rádio que o primeiro-ministro chinês vai visitar a Índia, o que na realidade foi um acontecimento histórico para dois países com relações diplomáticas muito más. Por ser megalómano, Balram Halwai – que não é o herói do romance, antes um anti-herói – está sempre a comparar-se com pessoas importantes. Como trabalha pela noite dentro, imaginou-se em grandes conversas com o primeiro-ministro da China. Ao mesmo tempo, foi uma forma de chamar atenção dos meus leitores indianos para algo que por vezes têm como garantido: que a Índia e a China vão ser grandes potências e governar o mundo. Esta opção permitiu criar vários registos na história. Mas, na verdade, ele não pode contar a sua vida a mais ninguém.

Numa sociedade de matriz cristã, como a europeia, sete dias – o tempo de duração do romance – têm uma simbologia muito forte, ligada à criação. Foi uma opção intencional?
Claro que sim. É um período de tempo importante em qualquer cultura. No fundo, ele está a contar a história de como se criou a si próprio, de como se tornou dono de si próprio. Por outro lado, é uma paródia, porque ele não conquistou essa independência da forma mais correcta. Criou-se a si mesmo através do crime.

A ironia e a estrutura quase detectivesta do livro contribuem para essa paródia?
Exactamente. Não há nada no meu livro que não seja conhecido dos leitores indianos. Tivemos um boom económico, entre 1995 e 2005, mas só beneficiou a classe média, não fez nada pelos pobres. Ao usar a ironia e o suspense é possível falar sobre algo extremamente desagradável para os leitores, sobretudo para os indianos da classe média. Outro aspecto que me interessou foi o facto de, na Índia, haver uma divisão muito rígida entre literatura erudita e popular. E isso condiciona o estilo. Na erudita, feita pelos escritores mais famosos, a acção tende a ser lenta, cuidadosamente escrita e estruturada, com temas e protagonistas das classes médias e altas, politicamente de esquerda ou liberais. Na popular, às vezes escrita nos dialectos indianos, são mais frequentes as ficções científicas, os policiais, as obras pornográficas, tudo muito rápido, com protagonistas das classes baixas. O meu objectivo foi fundir as duas literaturas. Segundo essa divisão, esta história é perturbante não só pelo tema, mas pela forma como é contada.

O Tigre Branco aborda as profundas contradições da sociedade indiana. Não teme que, embora ficção, seja visto como um livro político, portador de uma mensagem forte?
Nunca o vi nessa perspectiva. E também não saberia dizer que mensagem poderia ser extraída do livro, porque o herói é um criminoso.

Nem na descrição dos políticos e da corrupção que usam para chegar ao poder?
Isso é algo que acontece sobretudo no Norte da Índia. Muitos políticos são controlados por criminosos. Essa é a ironia. Para um pobre conseguir chegar a rico só tem dois caminhos: o crime ou a política. A minha personagem questiona a legitimidade do sistema, que permite a ascensão de criminosos a altos cargos.

O Tigre Branco é lançado em Portugal depois de Quem Quer Ser Bilionário? ter sido distinguido com oito Óscares. Estamos a descobrir uma nova Índia?
Não sei que imagem se tem da Índia. Para mim são dois romances e duas histórias muito diferentes. Baseiam-se no facto da maioria da população indiana ser pobre, o que é verdade. Não ter isso presente é estar desfasado da realidade. Por vezes, os nossos escritores, realizadores e artistas têm vergonha desse facto, o que faz com que os pobres não apareçam muito. Mas não devemos fi car envergonhados. É a nossa realidade. O que eu não gosto no filme Quem Quer Ser Bilionário? é que banaliza o carácter esmagador da pobreza. Sente-se logo que é uma fantasia. É impossível um rapaz da favela chegar a um concurso como aquele. O problema é que não há saída para a favela. Ou se aceita, ou se tenta contorná-la pelo crime e pela política. Não há fantasia.

Como vê o futuro da Índia e da China enquanto potências emergentes? Podem ter um papel decisivo na actual crise?
É inevitável. Um dos resultados práticos desta crise parece ser que a Índia e a China vão ser ainda mais importantes daqui a cinco anos. A crise acelerou esse processo. Mas têm de ser países mais maduros. O primeiro passo é resolver os problemas internos. No caso da Índia o maior é, sem dúvida, o fosso entre ricos e pobres.

Entrevista publicada no JL n.º 1003 (foto de Mark Pringle)

Slumdog Millionaire, por Arundhati Roy

«The pundits say that the appeal of the film lies in the fact that while in the West for many people riches are turning to rags, the rags to riches story is giving people something to hold on to. Scary thought. Hope, surely, should be made of tougher stuff. Poor Oscars. Still, I guess it could have been worse. What if the film that won had been like Guru – that chilling film celebrating the rise of the Ambanis. That would have taught us whiners and complainers a lesson or two. No?», diz a activista e escritora Arundhati Roy, autora do romance O Deus das Pequenas Coisas, sobre o filme Quem Quer ser Bilionário?. Para ler aqui ou na edição de Abril do Courrier internacional.

Leituras VII

Victor Brauner

Mais dois quadros de Victor Brauner, Prelude to a Civilization e Boxeurs. Ando grudado neste artista.

SobrEscritas em Torres Vedras

Amanhã não vou poder ir ao arranque da 3.ª edição do SobrEscritas, o encontro de escritores de Torres Vedras, organizado pela associação Académico de Torres Vedras e pela livraria Livrododia. Tenho pena. Muita pena. Mas depois vou perguntar o que por lá se passou ao homem que queria ser Luís Filipe Cristóvão.

DN virtual com novo visual

O Diário de Notícias tem um novo site na internet. Para conhecer aqui.

A Guerra Colonial vista por Manuel Botelho



Se estivesse no Porto, ia ver esta exposição do Manuel Botelho, na Galeria Fernando Santos. Chama-se Aerogramas e evoca a experiência da Guerra Colonial por quem a viveu. O ponto de partida são as cartas que os militares trocaram com as suas famílias, os tais aerogramas. São memórias fragmentadas aqui reescritas pelo desenho e pelos contrastes entre a cor e o carvão.

Um detective melancólico

Solitário, existencialista, melómano, apreciador de comida italiana, de um bom chope e de um charuto de vez em quando. Remo Bellini, o detective criado pelo brasileiro Tony Bellotto, 48 anos, guitarrista da banda Titãs, está de regresso a Portugal com mais uma investigação. Desta vez, trata-se de Um caso com o demónio, que a Quetzal acaba de lançar e cuja adaptação ao cinema, por Marcelo Galvão, se estreou na última edição do Fantasporto. Um manuscrito inédito de Dashiell Hammett levará Bellini, um paulista de alma e coração, às paisagens turísticas do Rio de Janeiro, no rasto de um playboy que poderá ter a chave deste mistério que exalta editores norte-americanos. Pelo meio, há uma adolescente assassinada na casa de banho de uma escola, com um tiro na testa. Como as personagens Hammett, Bellini dá o corpo ao manifesto e aventura-se por conta e risco em busca do assassino. É isso, aliás, que mais entusiasma Tony Bellotto, uma acção veloz, subjacente à ideia de um enigma a ser desvendado, conjugada com o retrato psicológico das personagens. «Os meus romances policiais seguem uma fórmula bastante tradicional, que se pode reduzir à máxima cadáver na primeira página, culpado na última», descreve. «O que os torna interessantes é a personalidade do Bellini, que é um detective bastante atípico».
O guitarrista dos Titãs, casado com a actriz Malu Mader, chega até a vê-lo como um duplo de si próprio. «Pelas reflexões que faz e pela forma como encara a vida é extremamente parecido comigo», afirma. A única diferença é que são lados opostos da mesma moeda. Um é solteiro, dado a infelicidades e a insucessos profissionais. De Tony Bellotto não se pode dizer o mesmo. «Todos sentimos que a vida também é feita de pontos obscuros, incertezas e inseguranças. Se eu consigo escapar a algumas, na escrita deixo que o fracasso e a desilusão se apoderem do Bellini». Não admira que o detective se entregue aos melancólicos ritmos do blues, que ouve no walkman, seguindo os gostos musicais do seu criador.
A música, de resto, sempre esteve presente na vida de Tony Bellotto – e comanda muitas vezes o ritmo da narrativa. Até porque o gosto pela escrita e pela música surgiu ao mesmo tempo, na adolescência. O fascínio por Jimi Hendrix e pelos Rolling Stones, entre outros, ditaram a primazia da guitarra eléctrica. No Colégio Equipe, conheceu alguns dos futuros membros dos Titãs, que na formação inicial contava com André Jung, Arnaldo Antunes, Branco Mello, Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Tony Bellotto. O primeiro disco da banda, ainda activa, saiu em 1984.
Foi lá pelos 30 anos que passou a encarar a escrita mais seriamente. «Se ainda tenho esse desejo preciso tentar cumpri-lo», pensou na altura. E pôs mão à obra, aproveitando os períodos entre as gravações dos discos. O primeiro policial, Bellini e a esfinge, surgiria em 1995, seguido de Bellini e o demónio (Um caso com o demónio em Portugal) e Bellini e os espíritos (publicado pela Bertand com o título Um caso de espíritos). Fora do género, publicou os romances BR163: duas histórias na estrada e Os insones. Em projecto, está um livro, com a primeira versão já concluída, que aborda a temática da música. E uma tournée dos Titãs por Portugal, algo que nunca foi possível. Agora, talvez o Bellini ajude.

Texto publicado no JL n.º 1003 (foto de Bel Pedrosa)

Regresso ao passado

Numa RGA, na FLUL, sobre Os Fazedores de Letras.

Vem aí a vanguarda romena

No Museu do Chiado, em Lisboa, a partir de dia 26, na exposição Cores da Vanguarda - Arte na Roménia, de 1910 a 1950 (Adão e Eva, pintura de Victor Brauner)

A Capela Sistina do Egipto

«Chamam-lhe já a 'Capela Sistina do Antigo Egipto'. Uma equipa hispano-egípcia, liderada por José Manuel Galán, encontrou em Luxor, na margem do Nilo, uma câmara funerária pintada há 3500 anos, anunciou o Conselho Superior de Investigações Científicas de Espanha». Ler notícia completa no DN.

Façam como ele

«O Vaticano recomenda a abstinência sexual para se combater a propagação das infecções com HIV e foi essa mesma linha que Bento XVI agora reafirmou no início de uma viagem de uma semana aos Camarões e a Angola», lê-se no Público. Só lhe faltou dizer: «Façam como eu...»

A física da solidão

É uma metáfora simples, mas funciona. Os números primos são únicos e misteriosos. Não se percebe muito bem o seu padrão e a razão da sua indivisibilidade. Além disso, espaçadamente, surgem em pares, apenas separados por um número, como o 19 e o 21 ou o 27 e o 29. O mesmo acontece com os protagonistas do romance de estreia de Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, um autêntico fenómeno de vendas, sobretudo depois da atribuição do Prémio Strega, o principal galardão literário de Itália.
Para Alice e Mattia nada é fácil. A aprendizagem da vida faz-se de muita incompreensão e dor. A solidão marca-lhes a alma, tal como as marcas do corpo espelham o seu isolamento da sociedade. Uma «história emocional», como descreve Paolo Giordano, um estudante de Física, nascido em Turim, em 1982, que está a preparar uma tese de doutoramento em torno das questões inerentes ao acelerador de partículas. Embora sonho antigo, a escrita só surgiu há três anos e meio, mais por aborrecimento do que por decisão consciente. Primeiro chegou a música. Em criança, ambicionava ser uma «estrela de rock». Ficou preso aos acordes durante década e meia, influenciado pelas sonoridades do pop e da electrónica. Agora, trocou o palco pela escrita. E, enquanto digere este sucesso (só em Itália vendeu um milhão de exemplares), com direitos vendidos para muitos países, já começou a pensar no próximo romance. É que entre a Física e a Literatura, os números batem sempre certo.

Como é que um físico, a preparar uma tese de doutoramento, acaba a lançar um romance?

Estava um bocado aborrecido com o meu trabalho. Quando se está a estudar Física, na faculdade, aprende-se muito rapidamente e é tudo fascinante. Porém, quando se começa a investigar a sério um determinado aspecto cada avanço leva meses. Por isso, senti que precisava de algo mais livre, sem as apertadas regras da Física. Além disso, a ideia de escrever um romance era antiga. Levou tempo porque provavelmente não fui suficientemente corajoso e pensava que talvez não fosse bom o sufi ciente. Até que, aos poucos, há três anos e meio, comecei a escrever contos e, passado algum tempo, arrisquei algo maior.

O que o atraiu inicialmente na Física?
Foi uma espécie de desafio. Era a disciplina em que tinha mais difi culdade na escola. Mas também aquela que sempre pensei que me podia levar mais longe ao nível do conhecimento. Na Física vamos até ao detalhe. Em A Solidão dos Números Primos sente-se uma grande precisão na linguagem.

A Física influenciou a sua escrita?
Acho que sim. No campo da Física Precisa temos de nos preocupar com números, com a exactidão dos números. Temos de saber tudo ao detalhe. Provavelmente, isso moldou a minha cabeça. E, de facto, tentei ser o mais preciso possível na linguagem. Usar nada mais do que o necessário.

Encontrar as palavras exactas?
Exactamente. Se sinto que uma frase pode ser dita de uma forma mais precisa volto a escrevê-la, uma, duas, três, as vezes que forem necessárias. Mas a par dessa precisão cerebral, sinto a presença da música, o trabalho com o ouvido na construção da sonoridade das frases.


Através da Física poderíamos dizer que A Solidão dos Números Primos é um livro sobre a atracção dos corpos. Qual foi o seu ponto de partida?
Nas leis da gravidade, quando temos dois corpos eles atraem-se, mas a partir de certa altura não conseguem aproximar-se muito, passando a girar em torno de um centro. O mesmo acontece com estas personagens. Elas sentem-se atraídas, mas como são muito parecidas quase que se repelem. Sempre me intrigou por que motivo não conseguimos chegar demasiado perto de algumas pessoas que nos são muito próximas e pelas quais sentimos uma grande atracção, até ao nível sexual. É uma espécie de história de amor imperfeita.

Mas o que lhe interessou nos protagonistas deste romance, bem longe da normalidade?
Não foram planeados. Quando introduzia uma nova personagem, ela acabava dominada pela solidão ou pelas suas idiossincrasias. Só depois percebi que era sobre isso que eu queria escrever: a escuridão que todos sentimos dentro de nós, enterrada por baixo de muitas coisas e que se expressa de muitas maneiras. As atitudes dos protagonistas, às vezes extremas, sãouma forma de mostrar essa escuridão.

É essa a ideia do título do romance?
É o fascínio de todo o estudioso da Matemática e da física. São tão simples de definir que até um criança que saiba contar até 10 consegue explicá-los. Contudo, mesmo com essa simplicidade há um mistério, ainda por resolver, sobre o padrão que seguem. Daí serem tão especiais e peculiares, como estas personagens.

No entanto, tanto Alice, quanto Mattia têm um enorme instinto de sobrevivência.
Nunca pensei muito sobre isso… Talvez. São vitais, num certo sentido. Provavelmente, grande parte dessa vitalidade vem da tensão que existe entre ambos, porque ao longo de toda a história eles partilham a dor um com o outro.

Este é um livro que fala sobre a actualidade? Estamos a viver tempos de solidão?
Não sei se hoje em dia a solidão é maior do que em outras épocas. Numa resposta rápida, diria que não, na medida em que temos tantos meios para nos comunicarmos, como os telemóveis e a internet. Costumo trabalhar muito com estudantes, e eles parecem-me já tão diferentes do que eu era com a mesma idade. Estão sempre a comunicar. No entanto, há uma grande sensação de precariedade, sobretudo nos últimos meses, como se as coisas estivessem movediças. É algo que se entranha na pele.

Este seu romance de estreia foi um enorme sucesso. Consegue explicá-lo?
Nunca é fácil explicar, sobretudo quando se trata de livros, que são um mistura de muitas coisas, incluindo coincidências. Talvez porque seja uma história muito emocional. O único objectivo que eu tinha em mente era fazer um livro acessível, sem ser simples, nem banal.

Versão ampliada da entrevista publicada no JL n.º 1003

Leituras VI

Leituras V

A sabedoria de Borges

Tirado do Abrupto.

Man on wire

Man on wire, um documentário a não perder. Mais informações aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui (foto de Jean-Louis Bloundeau).